Responda com sinceridade: se você fosse assumisse um cargo público de chefia, ficaria tentado a dar um emprego ao seu sobrinho? À sua cunhada? Ao namorado da sua neta? Àquela prima que anda meio sem sorte? Vamos lá. Você tem poder, bastaria uma canetada ou uma simples ligação e pronto. Por que não ajudar um amigo ou parente tão esforçado? Qual o problema se ele (ela) for competente?
E no trânsito? Já tentou convencer o guarda de que você não teve a intenção de cometer uma infração? Quem nunca encontrou um amigo na fila do banco ou do cinema e aproveitou para colocar o papo em dia enquanto se ajeitava em um lugar estrategicamente e de preferência mais próximo do caixa?
Se você disse NÃO a todas estas perguntas e está convicto de que resistiria a tentação de usar a sua influência para conseguir emprego a um conhecido, a lábia para escapar de uma multa ou a oportunidade de reduzir o tempo de espera em uma fila, tenha certeza: Você é uma exceção e não a regra.
Mas qual o problema? Podemos fazer isso. Muitos fazem. Sem o menor peso na consciência. Mas e se mudarmos os personagens? Se ao invés de você um político adotasse qualquer uma das ações exposta acima? De cara o taxaríamos de corrupto.
C’est la vie. Reprovamos neles o comportamento que seria mais lógico para nós.
Na ausência de dados nacionais consolidados, utilizo como exemplo o caso a seguir: Em 2008, o Instituto Paraná Pesquisas foi as ruas de Curitiba para saber quais requisitos poderiam influenciar na escolha do candidato à prefeitura da capital paranaense. Segundo a consulta, o eleitor curitibano se mostrou mais intolerante quanto à prática do nepotismo do que em relação a temas tidos como o alcoolismo, a infidelidade conjugal ou até mesmo do uso de maconha. E mais de 90% dos entrevistados declararam que não votariam em um concorrente que emprega parentes na sua gestão.
(http://www.jusbrasil.com.br/noticias/115180/nepotismo-e-pior-que-alcoolismo-diz-eleitor-em-pesquisa)
João Bosco Lodi afirma em seu A empresa familiar (Editora Pioneira, 3ªed: São Paulo: 1986) as vantagens de empregar parentes. Reproduzo algumas:
1)A lealdade dos empregados é mais acentuada na empresa familiar…;
2)A sucessão de familiares competentes na direção dos negócios dá origem a um respeito pela empresa;
3) A união entre acionistas e dirigentes geralmente pais e filhos ou sogros e genros facilitando a comunicação entre os órgãos volitivos e diretivos;
4) O sistema de decisão geralmente é mais rápido e informal, pois independe de longas e demoradas reuniões.
É claro que são casos completamente diferentes. A comparação entre o público e o privado nem cabe aqui, mas chamo atenção para o inverso, casos em que gestores públicos utilizam a máquina do Estado como se fosse a cozinha de casa. Daí surge o inaceitável.
Dinheiro em malas, cuecas e meias simbolizam o absurdo. A caricatura do vírus que circula os ambientes de poder. Em geral, os políticos corruptos que estampam páginas de jornais são vistos com a lente de aumento da imprensa brasileira, mas basta uma análise superficial para percebermos que estes homens e mulheres são representantes de uma sociedade que há muito incorporou à sua rotina, pequenos atos de corrupção. Tão repetidos e inseridos na dinâmica social que passam despercebidos na maior parte do tempo. O combate à corrupção deveria começar dentro de casa e na escola.
Faltam seis meses para as eleições 2010, este ano, mais uma vez, muitos eleitores vão escolher candidatos, sobretudo a deputado federal e estadual votando no amigo do amigo, afinal pela lógica nacional, é bom ter algum conhecido em caso de uma necessidade. Somos, portanto, co-autores do roteiro de escândalos e desvios de conduta protagonizado por nossos representantes. Temos o poder de escalar o elenco através do voto. Ou mudamos nossa atitude ou vamos continuar dando o poder de decisão sobre os rumos da vida pública a mensaleiros e aloprados Brasil a fora.
(*) Kézya Diniz é jornalista, repórter do núcleo de política da TV Jangadeiro