O sujeito se casa e, portanto, faz um contrato com a companheira. Dele constam obrigações e deveres formais, legais e morais, entre os quais, a presunção de fidelidade. Descumprida essa regra, resta ao traído pedir a separação ou, por variados motivos, fingir que nada aconteceu e ignorar a deslealdade sofrida. É o famoso corno manso.
Pois bem. Em política, os acordos entre líderes partidários obedecem a uma lógica análoga a dos casamentos. Essas parcerias não se definem por obrigações jurídicas, mas exigem uma boa dose de reciprocidade, de forma que os interesses das partes possam se complementar um com o outro.
“Perda irreparável”
Hoje li no O Povo que o governador Cid Gomes considera irreparável a perda do estaleiro no Ceará, mas que, mesmo assim, isso não terá repercussão na aliança política entre ele e Luizianne Lins, sua aliada, prefeita de Fortaleza e presidente estadual do PT. É que ela foi contra o empreendimento porque se sentiu excluída das negociações entre a empresa Promar e o Governo do Estado – na época, Luizianne avisou: “A cidade tem prefeita!”. Para ela, o Titanzinho, lugar escolhido para receber a obra, vai muito bem, obrigado. Ninguém mais sabe disso, uma vez que não há pessoa que se arrisque a passear por lá. De qualquer forma, como uma esposa ressentida, Luizianne não aprovou a conduta de Cid e passou a trabalhar contra o estaleiro. Depois até inventou um estudo técnico elaborado às pressas para dar verossimilhança à birra.
Uma mão lava a outra?
Quando Luizianne foi candidata à reeleição e amargava baixos índices de aprovação, Cid sustentou artificialmente o preço das passagens de ônibus na capital – concedeu descontos no ICMS para o diesel – para não desgastar a aliada. Agora, quando ele é candidato à reeleição, a parceira trata de sabotar a única boa notícia que o governador poderia dar em termos de grandes obras.
Se isso não for uma baita traição, não sei mais o que é. E como reage Cid? Fica indignado? Se sente aviltado? Mostra real indignação por perder o empreendimento para outros estados? Não. Nada disso. Ele prefere colocar a aliança eleitoral com Luizianne acima dessas miudezas. “Minha postura é de sempre olhar pra frente”, diz o governador. Pois é. Tem marido que também pensa assim….
Luizianne certamente não é obrigada a aceitar tudo o que Cid considera correto. Assim como ele também não era obrigado a usar os nossos impostos para dar uma mãozinha da eleição dela. Mas se são parceiros como dizem, que gozam de sintonia administrativa de programática, não há como justificar o impasse e a consequente perda do estaleiro.
Falta de brio
Cid tem se notabilizado pela frieza na condução de sua candidatura. Provavelmente considera que não ganha nada rompendo com a prefeita de Fortaleza. Mas aí, os legítimos interesses dos cearenses ficam subjugados pelas conveniências eleitorais. Luizianne não só discordou de Cid. Ela fez o que nem um adversário faria: trabalhou contra uma grande obra do governo que traria empregos e geraria renda, somente para se impor politicamente.
Tem horas que é preciso mostrar brios. Até por respeito próprio. Nesse caso, mais alguns motivos ainda podem ser listados: o Ceará, a capital Fortaleza, e o Titanzinho, que ficaram a ver navios… bem longe dali.